Escombros da Distopia


"Tem alguém aí?"

"Existe alguém aí dentro que me ouve?"

"Alguém aí consegue me ver?"

Terremotos são um dos desastres mais terríveis e tristes desse mundo. Infelizmente acontece aos montes, acabando com vidas de pessoas que não mereciam tal tragédia. Sinto pesar e me solidarizo aos países que passam por esse pesadelo.

No entanto, há um outro tipo de terremoto na vida... Um terremoto social e psicológico, mas também extremamente espiritual.

Debaixo de escombros de concreto e entulho encontram-se seres humanos morrendo aos poucos; uns já completamente mortos, outros ainda com uma fagulha de vida. Talvez ainda há chance de salvá-los, ou talvez seja tarde demais...

O terremoto de conflitos extremos, de emoções exacerbadas e de vazio existencial chacoalham a humanidade desde tempos remotos. Porém, hoje, esse terremoto é, ao mesmo tempo, causa e consequência de guerras declaradas, onde o campo é virtual, tendo como armas a crueldade explícita e a imoralidade como código de desonra.

A plateia do grupo A e B aplaudem seus combatentes, pois quanto mais sádicos e desonestos, mais admiração e orgulho causam em seus torcedores.

Não são somente placas tectônicas que provocam terror e destruição de um povo, mas são os "abalos cínicos" de fanatismos de ideologias, crenças ou conceitos em geral que soterram indivíduos, criando visões deturpadas, egos vaidosos e arrogantes, cegueira inconsequente, ódio e rivalidades perversas. 

Tais soldados não lutam o bom combate visando defender a ética, a moral, o caráter, a justiça ou qualquer virtude no mundo... Tais soldados defendem meramente bandeiras, times, interesses egoístas, hedonismos ou poderes de um grupo conveniente a eles.

São essas guerras que verdadeiramente causam os terremotos civilizacionais. São elas que matam a essência humana dos indivíduos, soterrando-os com enviesamentos desonestos e burros.

Não há quem consiga resgatar essas pessoas soterradas, pois estas se prendem com garras e presas aos escombros pesados do ego soberbo e prepotente, deixando de enxergar fatos com neutralidade e humilde desapego. Há muito peso e acúmulo de entulho intelectualóide sobre o que resta da essência humana. Elas próprias se matam a cada dia que passa, não restando mais alma... não restando mais nenhum sinal de consciência.

Quando ocorrem terríveis injustiças ou abusos, os soterrados de concreto procuram descobrir em primeiro lugar se tal injustiçado é de esquerda ou de direita, se é religioso ou ateu, se é do ocidente ou do oriente, se é branco, negro, indígena ou amarelo... para, então, descoberto suas características, ver se devem ou não defender e apoiar a vítima injustiçada. Ou seja: justiça é apenas a quem lhes convém, e não um direito de todos os seres.

Tudo é seletivo: racismo, xenofobia, abusos, preconceitos, crimes, humilhações... Os soldadinhos da conveniência não enxergam seres humanos, mas, sim, "os que fazem parte do meu exército e os que são meus inimigos de ideias e interesses".

O mundo faz tempo é um amontoado de escombros cheios de gente morta e desumana. O mundo virou uma tumba de sujeitos desintegrados e fechados em sua escuridão egoísta.

Mas, quem sabe, ainda exista uma alma cansada de ser mais do mesmo... de ser parte de uma massa bolorenta moldada pela fôrma das narrativas... de ter que enxergar somente pelas lentes sujas das ideologias e crenças... de ser um agente do separatismo em detrimento da cooperação.

Sim, talvez ainda exista algum sobrevivente.

"Tem alguém aí?"

"Alguém consegue me ouvir?"

"Consegue me enxergar daí das profundezas do seu Ser?"

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